Colégio Scalabriniano Medianeira
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Postado em 09 de janeiro de 2020

A importância das irmãs Scalabrinianas na Educação Católica no Brasil

Religiosa, imigrante, mulher: Irmãs Missionárias de
São Carlos Borromeo – Scalabrinianas num olhar
transnacional (1895-1917)

 

1 - Primeiros movimentos e negociações para a constituição da congregação

A formação de novas congregações religiosas femininas instituídas no decorrer
do século XIX ocorreu pelo investimento que a Igreja fez no desejo de revigorar o
sentimento religioso feminino e de fazer amadurecer na mulher católica uma maior
consciência do próprio papel e de suas tarefas familiares. Outra finalidade foi a de
proteger dos “graves perigos” aos quais era exposta a família por desprendimento dos
vínculos tradicionais e pelos fenômenos de desagregação produzidos pelos processos
de modernização econômica e social, urbanização, expansão capitalista, além da
secularização dos modos de pensar e dos costumes. Como afirma Perrot (2005, p.
272) a “[...] exaltação da diferença, do feminino (figura da Virgem Maria) pode
alimentar uma forte consciência de gênero e, com isso, um feminismo cristão, às vezes
missionário e combativo, baseado na promoção dos valores femininos como forma
de salvação”.
No caso da congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos, para além dessa
questão, está o intenso processo de emigração que marcava a península itálica na
segunda metade do século XIX e que embasou o projeto de acompanhamento e tutela
dos emigrantes proposto pelo bispo Scalabrini. É importante considerar esse contexto
de fundação da congregação e implementação das suas obras, pois “até os anos 1880,
as intervenções promovidas pela Igreja italiana para a tutela dos emigrantes foram
limitadas e revestidas, no conjunto, por um caráter episódico e marginal” (SANI,
2017, p. 143). Foi nos pontificados de Leão XIII e Pio X que se presenciou uma
mudança na atuação da Igreja, podendo-se citar o empenho de Pio X.

O projeto de Scalabrini marca o carisma das Irmãs de São Carlos Borromeo –
Scalabrinianas, assim como o movimento realizado pelas próprias Irmãs para
atenderem migrantes instalados no Brasil. A Congregação das Irmãs Missionárias de
São Carlos Borromeo – Scalabrinianas, foi fundada no final do século XIX, tendo
como missão o cuidado com o migrante, especialmente o italiano. Foi idealizada por
Giovanni Battista Scalabrini, bispo italiano que se preocupou com a mobilidade
humana fundando três instituições – a masculina (1887), a feminina (1895) e a de
leigos (1889) para o atendimento dos que emigravam, principalmente para as
Américas.

Conservar a fé pela preservação do sentimento de “origem” mesmo que
distante da Pátria. Foi com esse intuito que logo após a constituição da congregação
masculina, de acordo com Baggio (2011), a obra dos missionários foi considerada
incompleta por Scalabrini, justamente por não contar com a presença de Irmãs,
especialmente no Sul da América. Inicialmente, existia a intenção que as Irmãs
tivessem um estilo de vida semelhante ao das dioceses francesas, vivendo em
pequenas comunidades, dedicando-se ao catecismo, ministrando o ensino elementar
e, se possível, assistindo aos doentes. “A primeira tentativa foi a de encaminhar para
a assistência aos emigrantes as “Missionárias de Codogno”, isto é, as Missionárias do
Sagrado Coração, fundada por Santa Francisca Xaxier Cabrini” (FRANCESCONI,
1975, p. 15), mas como a congregação Cabriniana não ficou limitada à ação aos
emigrantes e Scalabrini “desejava que as suas religiosas tivessem a mesma finalidade
dos seus Missionários” (FRANCESCONI, 1975, p. 16), escreveu à Madre Cabrini, no
dia 19 de março de 1889, agradecendo o trabalho realizado pelas irmãs e justificando
a necessidade de trabalhar com os emigrantes, especialmente italianos.
Em busca de um trabalho mais efetivo com os emigrantes, Scalabrini buscou
as “Filhas de Sant’Ana, congregação fundada pela Serva de Deus, Rosa Gattorno, do
qual obteve a liberação de algumas Irmãs para o hospital italiano Cristóvão Colombo,
fundado em New York por Pe. Francisco Morelli” (FRANCESCONI, 1975, p. 16).
No entanto a parceria não teve continuidade, pois poucos meses depois “a fundadora
retirou as Irmãs porque as Constituições não permitiam que elas se dedicassem à
coleta de esmolas, recursos, então, em voga na América para sustentar as obras
beneficentes” (FRANCESCONI, 1975, p. 16).
O empenho de Scalabrini para fundar a congregação feminina foi reforçado
por Padre José Marchetti, que teve uma decisiva participação ao presenciar o
sofrimento vivido por um pai de uma criança com a morte da mãe da mesma no
navio. Marchetti se comprometeu a cuidar da criança e assim o fez ao deixá-la em
uma casa religiosa (SLOMP; BARBIERI, 1997, p. 30). De acordo com Signor (1986),
em carta de 31 de janeiro de 1895, Marchetti informou Scalabrini sobre seus planos
de construção de um orfanato, pois verificou a recorrência de órfãos entre os
emigrados e a necessidade de assistência.

(...)

2 - A congregação no Brasil e no Rio Grande do Sul

Do grupo de Irmãs que vieram ao Brasil em 1895, já nos primeiros anos de
1900, restava apenas Madre Assunta, o que explica o fato de Assunta tornar-se uma
referência para a Congregação, tendo assumido o governo geral por diferentes gestões
no período de estudo delimitado nesta pesquisa. Signor (1986) auxilia na compreensão
ao mencionar a saída da Congregação de Carolina Marchetti, mãe de Assunta, em
1897, que precisou retornar para a Itália a fim de assistir a família, bem como o
falecimento de Angela Larini (em 1899) e de Maria Franceschini (em 1902), ambas
vítimas de tuberculose. As perdas de Angela Larini e Maria Franceschini denotam as
muitas fragilidades e impactos sofridos por essas primeiras religiosas scalabrinianas.
Além disso, Irmã Maria Bassi e Camila Dal Ri se retiraram da Congregação após o
fim da fusão com as Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus3
.
Pode-se afirmar que a congregação se constituiu a partir das necessidades
percebidas e do fazer cotidiano, tendo iniciado suas atividades, efetivamente, com o
Orfanato Cristóvão Colombo, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 15 de
fevereiro de 1895 e em 8 de dezembro do mesmo ano o orfanato foi inaugurado. O
estabelecimento que recebia órfãos, de qualquer nacionalidade, no início foi dividido
em seção masculina e feminina (SIGNOR, 1986, p. 165).

(...)

As Irmãs ministravam desde 1915 aulas do curso primário, além de trabalhos
manuais e piano. E ensinavam o catecismo, auxiliavam na paróquia e ainda dirigiam
o coro. Na sequência, apresentamos as imagens das turmas de alunas e alunos de
1915. Em ambas, a presença do pároco local, Pe. Enrique Poggi, que viabilizara a
vinda das Irmãs e a abertura do Colégio.

As Irmãs são representadas como portadoras de modéstia, caridade, piedade,
bondade e gentileza. Essas representações “produzem as brechas que rompem às
sociedades e as incorporam nos indivíduos” (CHARTIER, 2010, p. 60). A recorrência
dos sentidos que se quer conferir às Irmãs e ao Colégio sinalizam o desejo de educação
e instrução católica que se propunha produzir.

(...)

O objetivo das Irmãs em sua missão, o de preservar o catolicismo por meio da
manutenção das práticas culturais dos grupos, ou seja, “Religião e Pátria” como
orientava Scalabrini, foi concretizado pela abertura de escolas, hospitais e obras
assistenciais. Educar e evangelizar se materializou. A presença de religiosidade, de
uma educação e instrução católica era requisitada pela Igreja, mas também atendia às
demandas da comunidade, especialmente dos migrantes italianos, incentivados pelos
párocos locais.
As muitas Irmãs, entre aquelas que imigraram e aquelas que se juntaram à
congregação em terras brasileiras (recrutamento e formação no Brasil), foram
marcadas pela condição de missionárias e ungidas com diversas representações que
circularam e produziram significações. A condição de mulher foi apagada e a de
imigrante quase nunca lembrada. Elas representaram a expansão da fé por meio do
cuidado – em escolas e hospitais, posto que sendo Irmãs era o suficiente para que
soubessem ensinar e acompanhar os doentes.

 

 

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